A mão que bate o martelo, martela a Alma

Por Meigan Sack Rodrigues – psicóloga clínica e advogada.

 

     Falar da violência contra mulher é sempre doloroso. Dói a alma. Não se trata apenas de referir que ela é treinada pela sociedade para calar, obedecer e se resignar. Mas, de contar que as poucas que lutam por uma mudança, as vezes lutam só ou são pouco acolhidas pelas demais.

     Quem é o grande vilão? São muitos, mas o medo e sobretudo a falta de educação contribuem demais para que essa situação se mantenha. Hoje, menos, mas não raro muitas mulheres se levantam e pedem ajuda, socorro. A luta não é só pelo alívio físico, mas também pelo psicólogo.

Engana-se quem pensa que o problema está resolvido apenas ao tomar coragem de entrar na delegacia e registrar a queixa. Eis que aí reside, muitas vezes, o início do calvário.

      A mulher precisa encarar o olhar do policial, um questionário imenso e em um sem número de oportunidades termina sentada na frente do magistrado e do representante do Ministério Público, obrigada a responder questionamento tais como: por que não fostes embora antes? Não tens medo de morrer? Não tens amor próprio?

        Todas perguntas feitas e repetidas a si mesma ao longo dos anos de purgatório.

        A mulher que sofre violência doméstica não precisa de um juiz, um promotor, um delegado ou um policial lhe questionando os direcionamentos da vida. Ela precisa de acolhimento, escuta e ajuda. Ela precisa de auxílio psicológico para entender a si mesma e seus desígnios. Precisa de ajuda para encontrar alternativas plausíveis e sair do sofrimento.

       Não raro a mão que bate o martelo e diz a justiça também perpetua o sofrimento na alma de quem, sem nenhuma força, não sai do casulo, não vence o medo, não confia em si mesma ou não encontra o caminho para mudar o rumo. Com certeza não é questionando a marteladas que se irá ajudar mulheres doídas pela mão pesada da violência íntima.

       Precisamos dar ao juiz, ao promotor, ao delegado, ao policial, mas sobretudo a essa mulher o auxílio necessário para acolher as suas dores, com respeito. Ouvir sem interromper seus lamentos.  Entender os porquês da sua história sem julgar, afinal ela é a vítima e não o seu algoz.

       E, quem sabe ao mudar do martelo para o abraço, possamos juntas defender a mulher que somos e que queremos ser. De fato, não podemos conceber que a violência ultrapasse o fator doméstico, se alastre entre as sendas da sociedade e se instaure, principalmente, no palco daqueles que deveriam promover o contrário.

        Se preciso for educar como acolher, como escutar, como proteger, que façamos isso. Já passou o tempo em que a violência doméstica é apenas um problema que se resolve entre quatro paredes, na delegacia, nas mãos de pessoas despreparadas, pois a sociedade inteira está implicada em educar o ser humano a ser humano.

        E, se você está com o martelo, com a caneta, com o bisturi, seja lá com que for, pense que é sua a responsabilidade de bater na tecla certa, no ponto correto, na hora adequada e fazer valer a educação por um país sem violência. Lembre-se, talvez um dia o martelo pese, a caneta seque, o bisturi não corte e seja hora de pedir ajuda.

     Esperamos que essa ajuda venha com calma, com alma, com escuta e acolhimento tão importante e necessário que lhe traga força para tomar todas as decisões que sejam importantes. Com respeito e muita tranquilidade, sem pressa e sem desespero, estaremos todas juntas.

61 3963 2872 / 61 3321 6869

SCS Quadra 2, Bl. C, Ed. Anhanguera, Salas 711/713

©2018 CURA CLÍNICA DE PSICOLOGIA.